Sobre ser mulher: desejos, escolhas e renúncias*

22/03/2015 09:49

*texto originalmente publicado na Revista Compartilhe (Pirassununga, março, 2015)

O advento da modernidade trouxe consigo vantagens e desvantagens para o mundo feminino. Não é novidade que as mulheres estão ingressando com força cada vez maior no mercado de trabalho, conquistando cargos políticos importantes e conseguindo cada vez mais se posicionar com voz ativa no campo social. O outro lado disso é que não deixamos de fazer as tarefas de antes, queremos tudo: ser profissionais de sucesso, mães exímias, zelosas com o lar, amigas disponíveis, esposas dedicadas. E tudo isso com o abdômen sarado! Claro que fica impossível! É uma ilusão pensar que se pode ter e ser tudo. Com isso, comumente, surge a culpa...

É um ganho enorme podermos escolher, ter a liberdade de decidir o que queremos, se vamos ou não exercer determinado papel, se tomamos um caminho ou outro. Mas o que queremos, afinal? Na diversidade de opções, às vezes nos perdemos. Escolher implica renunciar. E uma das escolhas mais sensíveis, pela qual passa a maioria das mulheres, se faz acerca da maternidade. “Estou pronta para ser mãe?”, “como conciliar a maternidade com outras funções das quais não quero me abdicar?”, “quero mesmo ter filhos?”. 

A melhor condição para fazer escolhas mais verdadeiras é o autoconhecimento: a capacidade para enfrentar de forma honesta e com sensibilidade os próprios sentimentos, buscando a verdade (às vezes dura) sobre si. Assim vamos percebendo que as necessidades das pessoas são diferentes, que os desejos das pessoas são infinitamente distintos e que as nossas prioridades raramente coincidem com o que os outros esperam de nós. Descobrimos que somos singulares!

Ser ou não ser mãe? Assim como há muito tempo mulheres vêm tornando-se mães sem se questionarem acerca de seus desejos, outras, nos dias mais atuais, deixam de se tornarem mães devido a um “eterno adiamento” onde acabam por fazer sua opção de forma não-elaborada. Fazer uma escolha acerca da maternidade de forma realmente pensada, consciente e honesta consigo mesmo demonstra maturidade e seriedade diante da vida. Longe de ser uma atitude egoísta, a capacidade de enfrentar estas questões com cuidado indica uma forte noção sobre responsabilidade. Reconhecer que não queremos, ou somos incapazes, de assumir tudo que esperam que assumamos é sensato e realista. Além de ser um alívio enorme! 

O fato é: não nascemos mulher, nos tornamos mulher ao longo da vida. E essa afirmação vem de Freud, que dizia que o caminho da feminilidade exige um longo trabalho psíquico. Somos um constante “vir-a-ser”, e cabe a nós, somente a nós, em cada momento da vida, escolhermos o que nos é possível, o que nos fará feliz!

“ Todas as vitórias ocultam uma abdicação” (Simone de Beauvoir)

 

Sophia Vieira - Psicóloga 

 

sophiaeugenia@gmail.com

Acesso ao texto original na Revista Compartilhe: http://issuu.com/compartilhe/docs/compartilhe8/1?e=8464917/11846986

Imagem: Simone de Beauvoir, 1952. Foto de Gisèle Freund.

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