Sobre o tempo de cada um e o tempo na psicoterapia

14/06/2014 19:23

Vivências recentes me convidaram a refletir sobre o efeito do tempo no nosso psiquismo e sobre o tempo de cada um, que é tão diferente do tempo real e do tempo do outro. Também sobre o tempo para crescer e o tempo na psicoterapia.

Nosso inconsciente é atemporal, ou seja, ele funciona sob um processo que ignora a passagem do tempo e não se altera com ele. Assim, crescer mentalmente não se dá pela passagem do tempo, mas no tempo particular de cada um. Por isso também, velhice nem sempre é sinônimo de maturidade.

Somos atravessados pelo tempo. Ele nos situa assim como o espaço (onde estamos, cultura, família), mas como vivemos cada um num tempo subjetivo diferente, podemos nos fixar em diversos tempos. Nostalgia, esperança, melancolia, ansiedade e tédio são sinais da temporalidade subjetiva em nós. Enquanto a depressão nos fixa num passado que não se altera, a ansiedade nos adianta um futuro incerto e o tédio nos mantém num presente sem esperança e que não passa.

No consultório, o encontro entre um paciente e seu terapeuta é um encontro entre um tempo que passa e um que não passa. De um lado existe o tempo da consciência (e do relógio) e, do outro, o tempo do inconsciente que atualiza e revive experiências passadas através de regressões, identificações, projeções, introjeções. Por isso é difícil determinar o tempo de uma psicoterapia.

O processo psicoterapêutico se orienta pelo ritmo de cada um, que pode se acelerar em alguns momentos e ser mais lento em outros. Cada caso é único e singular e cada pessoa tem uma maneira própria de lidar com seus pensamentos e emoções. Assim, quase sempre a psicoterapia exige um tempo longo de tratamento por lidar com questões delicadas e complexas que envolvem padrões de comportamento estabelecidos ao longo de toda uma vida.

É importante que o paciente tenha em mente que a psicoterapia traz benefícios concretos, mudanças visíveis e qualidade de vida, além de maior capacidade para pensar, ser mais livre e criativo; mas que estas mudanças não ocorrem de imediato, elas demandam um tempo importante, e provavelmente longo, de tratamento e dedicação. 

Sophia E. Vieira - Psicóloga 


sophiaeugenia@gmail.com

 

 

Imagem: A insistência da memória - Salvador Dali

CRP 06/110685

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