Ser ou não ser? Sobre crescimento e maturidade mental.

01/04/2014 06:22

“Torna-te quem tu és” é um dizer de Píndaro que frequentemente se vê atribuído a Nietzsche porque esse último teria se identificado com a ideia e a aprofundado em suas filosofias. É um dizer forte, que envolve muitos processos psíquicos, sobretudo o processo de crescimento mental.

Ser quem se é implica deixar de ser todo o resto, abandonar todas as outras possibilidades de vida e suportar a dúvida de ter feito ou não a melhor escolha. Crescer é uma escolha! Difícil e dolorosa, mas ainda mais sofrido é não crescer. Aliás, crescer pode gerar dor, mas não-crescer gera sofrimento. A dor de crescer se refere à dor consciente de se diferenciar, de fazer escolhas, de pensar com clareza e enxergar a realidade com olhos limpos e com autonomia de pensamento, porque nos desilude e encoraja a enxergar a realidade contraditória e inexata como ela é. Já o sofrimento de não-crescer é uma angústia desorganizada, confusa, irracional, sem nome e sem propósito. É desastroso!

A própria vida nos impulsiona a novas experiências de crescimento, é um fluxo quase natural. Evitar lidar com essas experiências é como ir contra este fluxo, atacando a própria mente.

Crescer é o ato corajoso e constante de lidar com o desconhecido, sobretudo o desconhecido de dentro, e nos responsabilizarmos por ele.

É uma postura mais ou menos constante porque as adversidades da vida estarão sempre se impondo a nossa frente, e a realidade como um todo é sempre complexa, contraditória, e por isso frustrante. Além de que, sempre carregaremos conosco restos de nossa infância e adolescência em formas de memórias não elaboradas que falarão em nós, produzirão sintomas e serão a base dos desejos mais importantes. Por isso, crescer não é linear, é como um espiral. Estaremos envolta quase sempre das mesmas questões, que terão a ver com nossa história particular, e a cada volta avançaremos um pouco, retornando à mesma questão e cada vez dando voltas maiores, ampliando a forma de ver o todo.

E isso nada tem a ver com se tornar uma pessoa boa. Até porque “ser bom” está muito relacionado a ser bom para os outros. Aliás, avançar no sentido da maturidade mental, ao contrário, pode incomodar alguns, e teremos que aprender a lidar com a inveja alheia e a própria culpa por crescer quando pessoas próximas a nós não conseguiram fazê-lo.

Ser ou não ser? Às vezes nos esforçamos para viver de acordo com o que esperam de nós. Mas além de ser impossível agradar a todos, na maioria das vezes o outro não quer de nós o quanto queremos que ele queira. Ou seja, o outro não se importa realmente! Crescer é solitário. Implica aceitar a própria solidão, a partir da qual o amor se faz possível.

Para isso teremos de lidar com dúvidas constantes, aceitar que não haverão certezas e respostas prontas, elaborar o luto da nossa identidade infantil, nos diferenciarmos dos nossos pais reais e nossos pais internalizados e enxergar que eles mesmos nunca tiveram as respostas que achávamos que tinham. Perdoá-los por isso.

“Tornar-se quem se é” é ser cada vez mais coerente consigo mesmo, com suas forças e fraquezas, com sua pele e estilo, aceitar-se como um todo, recontar a própria história, construir a própria visão de mundo enfrentando as frustrações de se ser um só: as dores de parto do nascimento de um ser pensante. Eis a questão.

 

Texto inspirado em:

Bion, W.R. Elementos da psicanálise. Imago, 1963.
Bion, W.R. Atenção e interpretação. Imago, 1973.
Martinez, A.L. O divã no dia a dia: crônicas do cotidiano sob o olhar da psicanálise. Ield, 2013.
Wolff, A, C.; Carvalho, C. V.; Costa, P.J.Dor mental, sofrimento, mudança. Artigo disponível em http://www.ppi.uem.br/. 2014.
 
 
 

Sophia E. Vieira - Psicóloga 


sophiaeugenia@gmail.com

 

 

 
 
 

Imagem: Van Gogh, A noite estrelada, 1890.

CRP 06/110685

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