É preciso uma aldeia para educar uma criança

26/01/2017 20:30

Desde que vivenciei pessoalmente a maternidade, a mim pareceu que tudo a minha volta se referia a este único assunto: ser mãe, como ser mãe, como ser uma boa mãe, como ser a melhor mãe do universo. Ainda me sinto assim, invadida por um zilhão de textos ameaçadores postados geralmente por não-mães ou por mães tão inexperientes quanto eu. Um pouco porque a atenção da gente se volta mesmo para aquilo que estamos vivendo internamente, outro pouco porque o Google e o Facebook acham que sabem mais de nós que nós mesmos e direcionam nossas timelines e pesquisas, e muito porque a vontade de acertar é tão grande que é fácil se apegar às prontas verdades alheias.

Confesso que eu me sentia muito mais preparada para falar sobre maternidade antes de me tornar, de fato, mãe. Depois da gravidez, e principalmente depois do nascimento da Olívia, as certezas se foram. Em contrapartida, tomaram espaço  sentimentos intensos e fortes intuições, e poucas decisões baseadas em racionalizações ou palpites de terceiros deram certo.  

Me perguntaram se ser psicóloga ajudava nessa tarefa, brinquei que só atrapalhava porque a gente ficava se encaixando e encaixando o filho nos piores diagnósticos. Mas a verdade é que não faz diferença alguma. O que faz diferença é se deixar conectar com o bebê, consigo mesma e com esse momento único que só pode ser vivenciado por nós e por ninguém mais. E deixar toda a sabedoria fluir daí. 

 

Admiro e cada vez mais me identifico com algumas ideias do psicanalista Donald Winnicott sobre este tema. Para este autor, o alicerce da saúde mental de uma pessoa está no desenvolvimento emocional do primeiro ano de vida. Por isso, os primeiros meses de um bebê são preciosos e dignos de todo cuidado e atenção. Ainda neste raciocínio, o autor aponta que o bebê já traz dentro de si impulsos para crescer e se desenvolver. Mas este amadurecimento só é possível quando o ambiente facilitar e for bom o suficiente para que o bebê possa se tornar ele mesmo.

 

Um ambiente facilitador compõe-se sobretudo de um cuidador (quase sempre uma mãe) mentalmente disponível para, naturalmente, exercer essa função. 

Com "naturalmente" quero dizer que essa capacidade não se adquire através de textos, conselhos ou mesmo na consulta com o pediatra. Ela surge espontaneamente na medida em que a mãe for capaz de se desconectar de tudo a sua volta e devotar-se ao seu bebê. Identificada à criança ela será capaz de intuir e atender suas principais necessidades.

 

Contudo, para que a mãe possa entrar neste estado quase fusional com seu filho, ela precisará de todo tipo de apoio. Neste período, que é transitório, é necessário que a mãe se desocupe de suas atividades para se dedicar à maternidade com toda sua mente. Ninguém cria um filho sozinho, e quando penso no provérbio "é preciso uma aldeia para educar uma criança", acredito que ele se refira a esta mesma ideia.

 

Portanto, basicamente, se a motivação para ajudar for a preocupação com uma criança, antes de tudo, empodere esta mãe, crie condições para que suas necessidades externas sejam supridas, ajude-a a encontrar forças dentro de si e então deixe que faça seu trabalho.

 

 

 

Ps: Gostaria de poder abordar aqui também o quanto este ambiente oferecido pela mãe não deve ser perfeito e ausente de falhas, e abordar sobre a possibilidade de esta maternagem poder ser oferecida em outro momento da vida ou por outra pessoa. Mas, eu não só estaria mudando a direção do assunto, como me estenderia demais. Sendo assim, quem sabe deixamos estes assuntos para o próximo texto?

Um abraço e até lá! 

 

Sophia E. Vieira - Psicóloga

sophiaeugenia@gmail.com
 
 
 
 

 

Imagem/Obra: Mother and Child, Gustav Klimt (1905)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
 
 
 

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