Da solidão

28/06/2014 19:47

A etimologia da palavra solidão se refere ao elemento “só” que vem do latim solus e pode significar tanto “solitário” como “único”. Há, portanto, dois tipos de solidão: 

 

Existe a solidão que gera angústia, desamparo, que aterroriza e representa perda e vivências de desintegração que estão ligadas a ansiedades paranoides. E existe um segundo tipo de solidão em que sentimos que estamos de posse de nossa própria companhia e podemos usar de criatividade para lidar com a experiência de se estar só. Neste caso usamos de uma ansiedade integradora e produtiva que nos capacita a crescer. 

 

O que diferencia uma da outra são as capacidades emocionais do indivíduo que são adquiridas quando ainda bebê e seguem se desenvolvendo durante a vida. Essas capacidades estão relacionadas à aceitação de que somos essencialmente sós e ao mesmo tempo dependentes, e precisamos do outro para amar, compartilhar e desenvolver. Os dois tipos causam sofrimento, mas somente o segundo faz crescer.

 

A capacidade de estar só é um indicativo de maturidade mental. Esta capacidade se diferencia do medo ou do desejo de se estar só e se refere principalmente à capacidade de estar só na presença do outro.

 

O sentimento de solidão, portanto, independe da ausência ou não de companhia, e é insuperável. Podemos sentirmo-nos sós mesmo na presença de amigos ou recebendo amor. E isso se dá devido a um anseio primordial e permanente de nos comunicar e nos integrar a outro ser humano afetivamente importante. Considerando-se que esta comunicação e integração absolutas são impossíveis, certo nível de solidão é inerente ao ser humano. 

 

A capacidade de estar só também está relacionada não somente ao anseio de nos integrarmos aos outros, mas também a nós mesmos. Aceitando e integrando nossos aspectos internos temidos e rejeitados, deixamos de projetá-los nos outros e senti-los como uma ameaça externa. Quando a solidão se apresenta de forma paranoide e desintegrada, atribuímos estes aspectos (nossos próprios aspectos  rejeitados) ao outro, que passa a ser ameaçador, o que reforça o isolamento.

 

Se conseguirmos conter o ódio, a inveja, a dor e o desamparo de sermos sós e dependentes, aceitaremos nossa necessidade do outro para crescer e então poderemos viver e aprender com esta experiência. 

 

Ambos os tipos de solidão geram alguma dor: a solidão paranoide gera um sofrimento infértil, mas a solidão criativa gera a dor da aceitação de si que nos abre para a vida, o amor e o crescimento.

 

Texto inspirado em: 

Klein, M. O sentimento de solidão. Imago, 1971.
Winnicott, D.W. O ambiente e os processos de maturação. Artmed, 1998.
Martinez, A.L. O divã no dia a dia: crônicas do cotidiano sob o olhar da psicanálise. Ield, 2013.
Zimerman, D.E. Bion, da teoria à prática. Artmed, 2004.
 
 

Sophia E. Vieira - Psicóloga 


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Edward Hopper, “Morning Sun” (1952)

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